Vários Mundos Ocultos

Dos Deuses aos homens, dos mundos aos átomos, da estrela ao vagalume, do Sol ao calor vital do mais humilde ser orgânico, o reino da Forma e da Existência é uma imensa cadeia, cujos elos se acham todos interligados. A lei de Analogia é a chave mestra para o problema do mundo, e os diversos elos da cadeia devem ser estudados coordenadamente em suas mútuas relações ocultas.

Por isso, quando a Doutrina Secreta pressupõe que o espaço condicionado ou limitado (o espaço de posição) só tem existência real neste mundo de ilusão ou, em outras palavras, em nossas faculdades de percepção, quer significar que todos os mundos, os superiores com os inferiores, interpenetram o nosso próprio mundo objetivo; que milhões de coisas e de seres se acham, quanto à localização ao nosso redor e dentro de nós, assim como nós estamos ao redor deles, com eles e neles. E isso não é um simples figura de retórica metafísica, mas sim a expressão de um fato real da Natureza, por mais incompreensível que seja para os nossos sentidos.

Cumpre entender, porém, a linguagem do Ocultismo, antes de criticar suas afirmações. Por exemplo, a Doutrina de nega – como também o faz a Ciência em certo sentido – a empregar os termos “em cima” e “embaixo”, “superior” e “inferior”, com relação às meramente invisíveis, uma vez que neste particular tais expressões carecem de sentido. Da mesma forma, as palavras “Oriente” e “Ocidente” são meramente convencionais, e necessárias tão-só para ajudar as nossas percepções humanas; pois, embora tenha a Terra os seus dos pontos fixos nos pólos Norte e Sul, o Este e o Oeste variam segundo a posição que ocupamos na superfície da Terra e em virtude de sua rotação de Ocidente para Oriente.

Assim, quando se mencionam “outros mundos” – melhores ou piores, mais espirituais ou ainda mais materiais, invisíveis em qualquer dos casos – o ocultista não situa essas esferas nem fora nem dentro de nossa Terra, como o fazem os teólogos e os poetas; porque elas não se localizam em nenhuma parte de espaço conhecido ou concebido pelo profano. Fundem-se por assim dizer, com o nosso mundo; interpenetram-no e são por ele interpenetrados.

Há milhões e milhões de mundos que nos são visíveis; muito maior é o números dos que se acham fora de alcance dos telescópios, e grande parte destes últimos não pertencem ao nosso plano objetivo de existência. Ainda que tão invisíveis com se estivessem situados a milhões de milhas de nosso Sistema Solar, coexistem conosco, junto de nós, dentro de nosso próprio mundo, e são tão objetivos e materiais, para seus respectivos habitantes, quanto o é o nosso mundo para nós. Mas a relação entre esses mundos e o nosso não é como a de uma série de caixas ovais encerradas umas nas outras, à maneira de certos brinquedos chineses; cada mundo está sujeito a suas próprias leis e condições especiais, sem ter relação direta com a nossa esfera.

Os habitantes desses mundos, já o dissemos, podem, sem o sabermos ou sentirmos, estar passando através de nós ou ao nosso lado, com num espaço vazio; suas moradas e suas regiões interpenetram as nossas, sem perturbar com isso a nossa visão, porque ainda não possuímos as faculdades necessárias à sua percepção. No entanto, graças à sua visão espiritual, os Adeptos, e até alguns videntes e sensitivos, podem distinguir, em maior ou menor grau, a presença entre nós e a proximidade de Seres que pertencem a outras esferas de vida. Os que vivem nos mundos espiritualmente superiores só se comunicam com os mortais terrestres que, por seus esforços individuais, se elevam até o plano mais elevado que aqueles ocupam.

Qualquer outra humanidade (composta de seres humanos diferentes) não será chamada humana se seus componentes não tiverem duas pernas, dois braços e uma cabeça com feições de homem, se bem que a etimologia da palavra não pareça ter muita relação com o aspecto geral da criatura. Assim, enquanto a Ciência rejeita e menospreza até a simples possibilidade da existência de tais seres invisíveis (invisíveis para nós), a Sociedade, apesar de no intimo acreditar neles, troça abertamente da idéia. E acolhe com risos obras tais como “O conde de Gabalis”, sem atentar que a sátira franca é a mais segura das máscaras.

No entanto esses mundos invisíveis existem. Tão densamente povoados quanto o nosso, acham-se disseminados no espaço aparente em número incontável; alguns são muito mais materiais que o nosso próprio mundo; outros vão se tornando cada vez mais etéreos, até que perdem a forma e ficam com “sopros”. O não serem vistos pelos nossos sentidos físicos não é razão para que se descreia de sua existência. Os físicos não podem ver os seus átomos, o seu éter, os seus “modos de movimento” ou forças; e contudo os aceitam, e os incluem entre os seus ensinamentos.

No sabemos, graças às descobertas dessa mesma Ciência que tudo nega, que nos achamos rodeados por miríades de vidas invisíveis? Se os micróbios, as bactérias e os tutti quanti do infinitamente pequeno são invisíveis aos nossos olhos em razão de suas infinitas dimensões, não poderiam acaso existir, no pólo oposto, seres igualmente invisíveis em razão da contextura de sua matéria, ou, numa palavra, de sua tenuidade? O raio de sol que penetra em nosso aposento revela, em seu percurso, uma infinidade de indiferença de seres minúsculos, cuja vida fugaz se passa e chega ao fim na mais completa indiferença de que sejam ou não percebidos pelos nossos sentidos mais grosseiros. E o mesmo sucede com os micróbios, as bactérias e outros organismos semelhantes, também invisíveis, que povoam elementos diversos.

Os homens viveram sem a noção da existência daqueles seres durante os longos séculos de triste obscurantismo, depois que o facho de saber dos sistemas altamente filosóficos dos pagãos deixou de projetar sua luz resplandecente sobre as épocas de intolerância e fanatismo de Cristianismo primitivo.

E, contudo essas vidas nos redeavam então, como hoje nos redeiam. E trabalharam, obedientes a suas próprias leis; e só quando nos foram pouco a pouco reveladas pela Ciência é que começamos a travar conhecimento com elas e com os efeitos que produzem.

***

Helena P. Blavatsky , “A Doutrina Secreta” Vol. 2.

2 respostas para Vários Mundos Ocultos

  1. Bruno Rebequi disse:

    Olá amigo! Obrigado pelo post. Pretendo ler todos os volumes da Doutrina Secreta, mas ainda estou no Vol. 1. rs! Contudo me identifico bastante com o conhecimento de Blavatsky. Sinceramente, com relação a existência de tais seres e mundos, vivo com a dúvida. Pra mim ainda é muito difícil separar o real da fantasia, mesmo tendo passado por experiências inexplicáveis nas quais se revelou uma regência de energias ocultas. Mesmo assim, talvez ainda precisarei de muitas vidas pra enxergar a realidade de forma clara sem nenhuma ilusão temporal. Hahaha! (“talvez” porque gosto de ser otimista. rsrs!) Um abraço de luz!

    • Claudio Bastian disse:

      Amigo Bruno, os caminhos são muitos, mas são nos atalhos que encontraremos a verdadeira luz, pois, se existe os atalhos o momento pode ser o ‘agora’. Nunca pense que precisamos viver ainda muitas vidas para ter, digamos, “gabarito” para tal. Vivemos em um mundo de ilusões, mas precisamos destas ilusões para viver por aqui. Na medida que evoluimos, vamos desvencilhando dessas amarras e pouco a pouco será mostrado um mundo novo para nós; novos conceitos, novas visões, nova mentalidade e maneiras de compreender o novo mundo que desponta.

      Muita paz.

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